Visita a Rádio Havana Entre as estações internacionais transmitindo para o Brasil em português, posso citar várias, mas as primeiras que ouvi foram as seguintes: Voz da América, a antiga Rádio Pequim e da Rádio Havana Cuba. Sintonizei essas emissoras em um rádio da marca SEMP que meu pai comprou na Rua Santa Efigênia, uma via em São Paulo que tem um comércio especializado, atualmente dedicado a eletroeletrônicos. Mas nas décadas passadas encontrávamos nessa região rádios, televisores, assim como os tubos que faziam parte desses equipamentos no passado além de outros componentes eletrônicos. Nas imediações, existia o escritório, de um conceituado curso de radiotécnico por correspondência e uma livraria especializada em livros técnicos. Foi nesse rádio que encontrei na lateral direita um botão grande marrom, que tinha as siglas OC, que mais tarde entendi que significava ondas curtas. Era o ano de 1969 e as interferências nas ondas curtas eram mínimas e as emissões internacionais chegavam até os receptores quase como um som local, sem grandes dificuldades de sintonia. Nem antena externa era necessário para sintonizar algumas estações internacionais. A emissora cubana trazia em todas as programações notícias sobre o objetivo do governo cubano em quebrar o recorde na produção de cana-de-açúcar. Esse recorde estabelecia uma colheita de dez milhões de toneladas em 1970. Isso permitiria o país uma excelente quantidade de divisas. Milhares de pessoas foram para o campo informava o noticiário. Diferentes segmentos da sociedade participavam dessa enorme tarefa, que não foi alcançada, informou depois em uma de suas emissões. O regime bateu o recorde mundial com 8,5 milhões de toneladas, informavam os locutores, mas não conseguiu a meta prevista. Foi ainda na Rádio Havana, nos tempos da Guerra Fria, que ouvi brasileiros exilados falando sobre a situação do Brasil e da resistência ao regime militar. Informações sobre o que acontecia em nosso continente eram e ainda fazem parte do noticiário, o que faz de suas transmissões uma fonte de informação sobre o Caribe e a América Latina, ignoradas pela mídia brasileira. Ao longo desses anos, apesar das fortes interferências que não existiam no passado, continuo ouvindo várias emissoras como a Rádio França, Voz da América pelas ondas curtas. Também ouço pela internet, mas essa modalidade de transmissão tirou o prazer da sintonia de uma emissora distante usando o rádio e o uso de antenas. Sintonizar uma emissora apelas ondas curtas exigia um certo esforço e paciência. Mas era prazeroso sintonizar uma estação distante de onde estávamos, sem a internet. Meu amor pelo mundo do rádio e das ondas curtas acabou me levando a Rádio Aparecida na década de 90, onde produzi e apresentei o programa Encontro DX. Como ouvinte da antiga Rádio Pequim, atual Rádio Internacional da China, mandei confeccionar uma placa do programa para o serviço em português, a qual foi entregue no Encontro de Ouvintes da emissora no Brasil em 2004. Em 2021 eu fiz uma placa comemorando 60 anos da Rádio Havana e não fiz o envio por várias razões, entre elas meu desejo de entregar pessoalmente e os problemas existentes nos correios entre os dois países. Analisando a vida que passa num piscar de olhos, eu decidi em 2024 que era hora de levar pessoalmente a placa e visitar o país. Cheguei a Havana no dia 14 de janeiro de 2025 e no dia seguinte me dirigi de táxi até o endereço do departamento de correspondências, julgando ser o prédio da emissora. Levei minha filha que conhece muito bem o idioma, minha intérprete Daniela Macedo. O endereço que eu tinha era Calle O número 266, bairro El Vedado, um bairro bonito e histórico, com vários escritórios de empresas e órgãos do governo. Chegando no local, o motorista estranhou, pois eu falei que ia visitar uma emissora e ele me mostrou um prédio alto sem nenhuma indicação de ser uma emissora. Perguntou se eu estava com o endereço certo e disse que sim e que iria entrar. Na portaria, não havia ninguém e a porta estava trancada. Liguei para o telefone que me foi fornecido e fui atendido pela senhora Irma Veitia que gentilmente desceu e nos levou ao nono andar. Nesse andar, em uma sala grande, funciona setor de correspondência, onde trabalham quatro funcionárias, Irma, responsável pelo setor, Yolanda, Ania e Teresa. Fui muito bem recebido, tomei um excelente café cubano e comecei a fazer perguntas, sobre a emissora e sua história, apesar de não estar mais apresentando o programa Encontro DX. Eu queria saber dos estúdios, dos comunicadores, transmissores, etc. A senhora Irma explicou que naquele prédio funciona o Setor de análises e Correspondências, um serviço que existe desde o nascimento da emissora e responde de forma individual aos contatos dos ouvintes, seja via correio eletrônico ou cartas. Fui ainda informado que nos andares superiores do prédio da Rádio Progresso, localizada na Calle Infanta número 105, bem próximo do setor, estão os estúdios da emissora em ondas curtas cubana. Os estúdios estão passando por uma modernização e há apenas um em funcionamento. Naquele período, não havia ninguém, pois o material que estava no ar era uma gravação. A maioria do pessoal da emissora está trabalhando em suas casas até que os estúdios sejam modernizados. Apesar do setor de correspondência não ter comentado, o país enfrenta um sério problema energético. Portanto, tem o setor que trata das correspondências em um local e os estúdios e direção localizados na Rádio Progresso, fundada em 15 de dezembro de 1929. Significa que o prédio é dividido com a emissora que faz transmissões para o exterior em ondas curtas. Fiquei sabendo através de outras fontes, sobre a questão dos transmissores, num contato com uma pessoa da Radio Cuba, cuja sede estava próxima de onde eu estava hospedado. Apesar do nome, não é uma emissora, mas uma empresa cubana responsável pela parte técnica das emissoras cubanas, como transmissores e antenas. Infelizmente, os ouvintes não estão sintonizando as transmissões nos diferentes idiomas, pelas ondas curtas, como de costume. Em janeiro de 2025, apenas a frequência de 15.230 kHz constava no site da emissora. As informações são que eles estão transmitindo em alguns momentos em 6.000 e 15.230 kHz, apesar de terem 13 transmissores. A Radio Cuba mantém um grupo de engenheiros e técnicos fazendo o possível para reparar os equipamentos. A crise no sistema energético atrapalha muito o país. Como a eletricidade é gerada por usinas termoelétricas antigas, surgiram problemas de manutenção com dificuldade para repor peças, e isso causa instabilidade do sistema elétrico do país. A reposição de peças para os equipamentos, como transmissores e transformadores, é um dos inúmeros problemas causado pelo bloqueio que o país enfrenta há mais de 60 anos. Já os enlaces de telecomunicações por cabo e por micro-ondas são de responsabilidade da ETCSA – Empresa de Telecomunicações de Cuba, o que possibilita ouvir as transmissões pelo portal https://www.radiohc.cu/pt Nessa viagem, tomamos conhecimento de que a emissora tem um gigantesco arquivo sonoro de grande valor, com mais de dez mil horas de gravação. Nele é possível encontrar discursos e pronunciamentos de líderes da revolução cubana, como Fidel Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos, e intelectuais como Alejo Carpentier , além de entrevistas com compositores e cantores cubanos. Muitos desses materiais sonoros são da antiga emissora cubana CMZ/COX do Ministério da Educação, período anterior à revolução. Quando ocorreu o processo de reorganização da radiodifusão em Cuba, em 1961, a emissora CMZ deixou de ir ao ar e as frequências passaram para a Rádio Nacional Musical. O fato de não ter encontrado um prédio enorme com uma placa em letras grandes inscrita Rádio Havana, não me decepcionou. Ao longo dos meus anos de escutas, recebi centenas de postais e boletins de emissoras internacionais, com as mais diferentes imagens de estúdios e edifícios. Sei que cada país com suas emissoras internacionais têm suas particularidades e Cuba não é um país rico. Os problemas enfrentado por Cuba com a questão das mudanças climáticas e a crise energéticas são imensos, e isso segundo comerciantes tem diminuído o número de turistas. Não é possível comparar a Rádio Havana com as grandes broadcasting de outros países. Essas grandes emissoras tem um bom orçamento e começaram a transmitir logo no início da Segunda Guerra, para fazer frente ao perigo nazifascista dos anos 30. Importante foi o carinho e o acolhimento que recebi do departamento e o privilégio de conhecer pessoalmente as funcionárias responsáveis pelo contato com os ouvintes, além da Rádio Progresso. Depois das ondas sonoras que chegam aos nossos receptores, ficou claro para quem ouve a emissora desde 1969, que o departamento de análises e correspondências é a parte física do slogan da Rádio Havana: “Uma voz de amizade que percorre o mundo." Cassiano Alves Macedo Blog: antenadosaber.blogspot.com/ Facebook: www.facebook.com/programaencontrodx Instagram: @encontro.dx

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